Lendas e crendices do Acre

Lendas e crendices do Acre 

 

Professoras acreanas lançam livro sobre mitos e encantos da floresta com histórias sobre Caboclinho-da-Mata, Mãe da Seringueira, Mãe D’ Água, Mapinguari e outros personagens

Tião Maia

Os mistérios e encantos da floresta, com suas lendas, crendices e histórias sobre entidades mágicas que povoam a cabeça e a oralidade do homem da Amazônia, acabam de ser reunidos em livro que será lançado em Rio Branco, no próximo dia 21, pelas irmãs Márcia Verônica Souza e Meyrelene Ramos de Macêdo.  Caboclinho-da-Mata, Mãe da Seringueira, Mãe D’agua e o Mapinguari são, entre outros, os personagens de histórias contadas por quem jura tê-los visto – e muitas vezes bem de perto.

Professoras de profissão, Márcia e Meyrelene Macêdo juntaram as entrevistas feitas há 15 anos para um trabalho de pesquisa diactológica para o Cedac (Centro de Estudos Dialectológicos da Universidade Federal do Acre (Ufac) e estão publicando “As lendas da floresta contadas por seringueiros acreanos”, um livro que reúne o fantástico e o telúrico, o onírico e o concreto universo do homem da Amazônia.

Ali estão registradas, através de depoimentos de pessoas devidamente identificadas, histórias primitivas que compõem o imaginário dos povos da floresta com a carga de suas crendices, histórias fabulosas de deuses, entidades e animais encantados.  Relatos tão reais e verdadeiros quanto os perigos e a beleza da selva.  Uma dimensão mágica digna de um Câmara Cascudo.

No paraíso da floresta amazônica, onde tudo é possível, o mito do Mapinguari com seu odor nauseabundo, do Boto, o príncipe encantado das águas a seduzir principalmente mulheres menstruadas, do Caboclinho-da-Mata com sua vasta cabeleira loira e sempre montado num animal a fiscalizar a ação predatória do homem, da Mãe D’Água coberta apenas pelos longos cabelos – tudo assume feições reais, verdadeiras.  Um seringueiro que tenha o desprazer de deparar-se com o “Caboquinho” da Mata, como ocorreu a um certo Francisco das Chagas Nascimento, então com 16 anos, do Seringal Papaconha, em Tarauacá, além de levar uma surra, ainda passa vários dias com “panema”, um estado em que o corpo fica apenas semivivo, quase morto.

É ele que fala agora de sua experiência: “Eu fui caçar num dia de quinta-feira.  Fui para o ‘aceiro’ do roçado.  Chegando lá percebi que tinha um rastro de veado.  Voltei para casa para pegar três cachorros: uma cachorra minha, um cachorro do meu irmão e um do meu padrasto.  Eu cheguei a colocar os cachorros no rastro.  Eles saíram em disparada, espantaram o veado e atravessaram o igarapé.  Eu fiquei do outro lado.  Era um dia de quinta-feira, eu fui atravessar o igarapé e levei uma ‘lapada’ e os cachorros ficaram aos gritos.  Eu fui olhar, chegando lá eu peguei uma lapada no fio do espinhaço.  Olhei e não vi ninguém.  Os cachorros aos gritos, bolando no chão e a ‘peia comendo’.  Eu fui, cheguei mais na frente, chamei os cachorros, peguei doze ‘lapadas’ ao todo.  Eu consegui andar, as cheguei em casa todo quebrado, ‘estrupiado’ mesmo.

“Eu pensei assim, no meu entendimento, eu sei que foi o Pai das Caças, o Caipora.  Era um dia de quinta-feira.  Talvez esse não seja um bom dia para caçada, não é dia de ninguém andar na mata.  A quinta-feira é um dia sagrado.  Eu pensei assim porque era a primeira vez que ia caçar dia de quinta-feira.  Eu estava acostumado a ‘esperar em barreiro’ de noite.  De dia, eu preparava a comida para o veado, porco, anta.  Desde o dia que eu peguei a ‘pisa’ em diante, eu nunca mais “esperava em barreiro”, nem de dia nem de noite.  Então, eu acredito que existe o Caipora, porque eu peguei as ‘lapadas’ e os cachorros que andavam comigo apanharam também”.

Caipora e Caboclinho-da-Mata, conta Meyrelene Macedo, são a mesma entidade.  Varia de nome apenas de região para região, dentro do universo amazônico.  É chamado Caipora nos seringais e castanhais do Pará.  No Acre, é “Caboquinho” mesmo e pronto.  E o Acre, com o registro da presença humana em seu território com cerca de 200 anos, também tem seus personagens exclusivos.  É o caso da Mãe da Seringueira, personagem da história do seringueiro Pedro Faustino da Silva, de 24 anos, do Seringal Canadá, nas matas de Xapuri.  Seu relato é o seguinte: “O meu pai conta que existe a Mãe da Seringueira.  Ele só ouviu falar, porque também não viu.  Dizia que era um tipo de velhinha, toda arranhada.  Dizia que os golpes que a gente dá na seringueira ficam gravados nela.  Ele me contava, mas nós nunca vimos e ele também disse que nunca viu, mas a gente ouve falar.  Ela fazia mal para os seringueiros malvados.  Ela só aparece para o seringueiro para pedir a ele ‘cortar bem maneirinho’ para não fazer mal a ela.  O seringueiro que ‘combinava’ com ela cortar bem maneirinho, ela dava muito leite.  Diziam que esse seringueiro tirava muito leite.  Combinar é assim: porque ela aparecia e falava para ele para o que tinha coragem de conversar com ela: ‘Corte bem maneirinho para não maltratar a seringa eu te dou muito leite.  Assim ele ficava tirando muito leite.  Se era bom trabalhador, ela ajudava.  Agora, para aqueles que não tinha coragem para os que não acreditavam naquilo e cortava fundo, diziam que só tiravam aquele ‘tantinho’ de leite”.

O trabalho das professoras, apoiado, em forma de bônus fiscal, pela Papelaria Escolar, editado pela Printac, divulgado pelo Sesc e a Procuradoria Geral do Estado (PGE), com recursos da lei de Incentivo à Cultura, um programa da Fundação “Elias Mansour”, traz o imaginário para o real.  É uma tentativa de perpetuar o místico – algo que está ameaçado pela chamada modernidade, cujo cotidiano não se permite parar para ouvir as histórias.  Uma tentativa de proteger o mundo em que o mito atinge uma dimensão real capaz de suplantar a consciência.  Um jeito capaz de registrar e guardar símbolos de um mundo em que ainda é possível viver sonhos e ser feliz.

A palavra de uma das autoras
A co-autora Márcia Verônica, mestre em lingüística pela UIR (Fundação Universidade Federal de Rôndonia Instituição Educacional de Nível Superior), está se doutorando, na mesma área, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, e estará aqui para o trabalho de divulgação e lançamento do livro que ajudou a escrever ao lado da irmã Meyrelene.  No trabalho solitário de divulgação, Meyrelene falou ontem, ao Página 20, sobre como o livro nasceu.  A seguir, os principais trechos da entrevista:

Esse livro é interessante, principalmente para o universo do Acre, porque, ao que tudo indica, o acreano nasceu junto com as lendas da floresta.  Pouco são os acreanos que não têm uma estória para contar de uma mula-sem-cabeça, de uma alma penada que pega carona na estrada, de Caboclinho-da-Mata ou mesmo do Mapinguari.  É disso então que você e sua irmã tratam nessa publicação?  Meyrelene Macêdo – Sim.  São histórias normalmente registradas por estes seringueiros que nós entrevistamos através de um projeto iniciado em 92.  Como eu fazia faculdade letras, tive a oportunidade de ser bolsista e a minha irmã, co-autora do livro, também tinha ganhado uma bolsa de pesquisa.  O trabalho era desenvolvido com a professora pós-doutora Luiza Lessa, aplicando questionários e fazendo entrevistas em vários locais do Acre.  Os seringueiros falavam do trabalho que eles tinham na floresta e as lendas eram conseqüência do local, das crenças, do universo que eles viviam.

De todas as lendas que vocês ouviram, quais foram as que mais chamaram a atenção de vocês, aquilo que despertou para esta publicação?  Quais são as lendas mais contadas?  O que mais chama a atenção é que essas entidades não são inimigas; são, na verdade, entidades protetoras.

Quantas são?  Aliás, quais são essas entidades?  Há um sem número.  As principais são o Caboclinho-da-Mata, a Mãe da Seringueira, a Mãe d’Água, o Mapinguari.

Ao que tudo indica, cada uma dessas entidades tem uma função.  O Caboquinho-da-Mata, por exemplo, cuida da proteção à caça e não só a floresta, é isso?  Normalmente, sim.  Ele cuida para evitar a destruição, se insurgindo contra o seringueiro que mata e deixa a caça no mato, estragando.  Quando acontece isso, o “Caboquinho” vem e, para usar um termo do seringueiro, “mete a peia” no seringueiro predador.  Segundo eles, por causa disso, eles apanham mesmo do Caboclinho-da-Mata.

Essa peia consiste no quê?  É uma panema ou numa peia física mesmo?  Na peia física mesmo.  Uma peia com alguém invisível batendo tanto no homem como nos cachorros.

Alguém contou isso para você?  Alguém disse que apanhou deste ente invisível?  Contou.  Está registrado no livro.  Pessoas que dizem isso com toda a seriedade possível.

Uma vez eu estava em Xapuri, com os senadores Eduardo Suplicy (PT-SP) e Tião Viana (PT-AC) e o Raimundão, o sindicalista Raimundo Mendes de Barros, um homem sério e fora de qualquer suspeita, disse, para espanto de todos, principalmente do Suplicy, que arregalou os olhos ao ouvir a história, ter ficado frente a frente com o Caboclinho-da-Mata.  Uma afirmação feita com tanta convicção que você não tem dúvida de que aquele homem está falando sério.  As afirmações feitas a vocês sobre isso também foram feitas com este tipo de convicção?  A maioria não.  Dizem que a coisa aconteceu com o pai, com outro parente, com um amigo, com o vizinho.  Um ou outro diz que aconteceu com ele, mas conseguimos – e está no livro – depoimentos contando a história em primeira pessoa.  Mas, mesmo que o caso não sejam relatados em primeira pessoa, os personagens narram as historias com pormenores de detalhes que você realmente acredita que aquilo aconteceu, que é real.  Na verdade, para quem trabalha com isso, aquilo é real, sim.  O seringueiro vive num universo habitado apenas por animais e pela imensidão da floresta.  O sujeito se sente muito só e essas histórias os alimentam no seu dia a dia.

Esses seringueiros então são ambientalistas de natureza e, em não tendo políticas para preservação, eles se valem dessas entidades para melhor afirmar suas idéias?  É isso?  É o que eu realmente acredito porque essas entidades, além de protegerem as florestas, o que ela contém, elas funcionam como entes e meios de punição para punir aqueles que violarem esse equilíbrio.

De todas as entidades, qual a mais freqüente no imaginário popular?  O Mapinguari ou o Caboclinho-da-Mata?  Eu diria que os dois são bem populares.  Mas o mais popular é o caboquinho e o número de estórias dessa entidade no livro é bem maior…

O Caipora e o Caboclinho-da-Mata não seriam a mesma entidade?  Me parece que o Caboclinho-da-Mata é uma entidade genuinamente acreana, não é ?  Realmente, o Caipora é um ser mais conhecido em outras regiões, como o Centro-Oeste, Sudeste.  Aliás, no livro há poucas histórias sobre o Caipora porque os seringueiros acreanos não são familiarizados com este termo.  Mas uma entidade também muito popular é a Mãe da Seringueira.

Ela protege o quê?  Protege a árvore da seringueira e costuma fazer pacto com os seringueiros mais corajosos.

E quando os seringueiros vão descrever a Mãe da Seringueira, como é que a definem?  É uma mulher bonita?  A mãe da Seringueira é uma velha barriguda, feia, de cabelos longos.  Suas pernas são todas retalhadas, como ficam as árvores, com o uso contínuo.  Ela protege a árvore da seringueira.  O seringueiro faz pacto com ela.  Quando ele rasga a seringueira com mais violência, com maior ambição para obter o leite em grandes quantidades, é castigado.  Quando faz o pacto e respeita a árvore, retirando a o leite na quantidade certa e sem ambição, ele consegue ter mais lucro.  Mas não são todos que têm coragem de falar com ela.  Já o Caboclinho-da-Mata, na descrição do seringueiro acreano, é loiro, dos cabelos longos e luminosos como de fogo.  Há quem fale também de ser alvo, muito ranço, próximo ao dourado.

Ela protege ou castiga?  Como é esta relação com o homem?  É uma entidade que cumpre o pacto feito com os seringueiros mais valente, mas determina um prazo.  Se ele teimar acaba, como punição, enlouquecendo.

Enfim, é um livro que mergulha fundo nas raízes do Acre, não é?  Tivemos o cuidado de separar as coisas.  Mulas-sem-cabeças, almas penadas, lobisomens, essas coisas, fazem parte de lendas quase urbanas e não são majoritárias no Acre.  Nos ativemos ao imaginário do Acre, ouvindo seringueiros dos Vales do Juruá, do Purus e do Alto Acre, contando suas histórias, detalhes do trabalho com a seringa, do universo mágico da floresta.  Creio que vale à pena ler.

Serviço
O livro “As lendas da floresta contadas por seringueiros acreanos”, de Márcia Verônica e Meyrelene Macêdo, será lançado dia 21 deste mês, a partir das 19 horas, no Memorial dos Autonomistas, no cruzamento das avenidas Brasil e Getúlio Vargas, no centro de Rio Branco.

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Sobre seringueira

Deque αdiαntα eu dizer o que eu penso de mim se cαdα um tem suα opiniαo?
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